quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Epílogo

Termino essa pequena coletânea de causos com a sensação de que muitas dessas histórias, especialmente as que envolvem entidades mágicas, têm se tornado cada vez mais raras. Muitos interpretam isso como uma evolução cultural da sociedade, uma demonstração de que nosso povo se tornou educado e já não acredita mais em assombração que sai do mato para correr como visagem, seja feito lobisomem, perna cabeluda ou uma alma zombeteira. Mas, caro leitor, eu não concordo muito com isso, não! E vou lhe explicar o porquê, daí você decide! Muito pelo contrário, eu enxergo tal comportamento como uma perda de identidade cultural e apreço pelas estórias encantadas do passado. Quem ainda sabe contar, muitas vezes reluta em fazê-lo quando solicitado, pois tem receio de ser zombado. Outros, mais jovens, simplesmente colocam na cabeça que a fábula da tv ou vídeo game é muito mais interessante do que a narrativa do seu avô. Mas, pensando bem, eu até entendo os mais novos: como ficar com medo da Comadre Fulozinha ou do Tôsseco, se nem existe mais mata decente perto de casa que ponha medo de topar com essas entidades? E quando há um fragmento de vegetação, medo mesmo é de topar com um sujeito de dois braços e duas pernas, não muito cabeludas, armado com pistola calibre, sei lá, quanto. Afinal, é só isso todo dia no noticiário!
E Ponte dos Carvalhos... ah, caro leitor! Esse bairro é há tempos famosíssimo nos jornais mais encarnados da região metropolitana do Recife. Até parece que o pai do mangue fez muito bem seu trabalho, protegendo o lado de lá do rio, onde condomínios de alto luxo residem na charmosa Reserva do Paiva, porém esqueceu-se mesmo foi do vilarejo com seus antigos pescadores, que vivem hoje em meio ao esgoto, lixo e violência, e que de tão acostumados, nem percebem mais. Perceber o quê mesmo? Ou vai ver que esse tal de pai do mangue é muito do esperto, e resolveu viver no lado chique do rio, onde, espero eu, o esgoto seja tratado. Talvez, caro leitor, eu esteja mesmo é sendo muito saudosista e revivendo uma memória que nunca foi tão bela assim. Afinal, quando se é criança, tudo tem lá seu encanto. Lembro-me do antigo trem a diesel, em seus últimos áureos anos, atravessando o mangue que margeava os rios Pirapama e Jaboatão, ainda bastante preservados. Recordo-me da antiga fábrica de zinco, em meio a um bananal, que eu julgava ser uma mata sem fim, onde hoje fica o bastante deteriorado Parque dos eucaliptos. Por que não falar da última grande floresta de restinga do nosso estado, da qual quase nada sobrou, nas terras da antiga e polêmica fábrica de pólvora em Pontezinha (cujo último acidente rendeu histórias assombrosas demais para contar). O engenho Bela Vista, com seu casarão já muito desgastado, de onde se avistavam os coqueirais da outrora deserta praia do Paiva. Os campos de capim com flores cor de rosa, a balançar ao vento, e que logo terminavam em um caminho cheio de xiés, correndo para suas tocas na beira do manguezal. A igrejinha de Santo Antônio do monte, datada do período colonial, que agora se vê ameaçada por grandes empreendimentos que derrubam os morros, vendem a terra e os terrenos já aplanados.
Pois é, muito mudou, o progresso chegou por essas bandas, com grandes galpões de indústrias ligadas ao crescimento do porto de Suape e da instalação da refinaria Abreu e Lima. Porém, entristece mesmo o coração ver que foi um progresso desordenado, sem muito planejamento, sabe? Sem quaisquer preocupações com consequências para a urbanização local, qualidade de vida das pessoas e preservação do meio ambiente. Muito dinheiro foi injetado na economia local, e ao caminhar pelas ruas do antigo bairro onde cresci, vejo que muitas delas finalmente foram calçadas e há saneamento, após algumas décadas de descaso. Muitos moradores já não têm mais jardins e quintais. Algumas casas são contínuas com os muros e não faltam construções improvisadas. A linha do trem é margeada por mucambos, que muito me fazem lembrar a já decadente Macondo. O esgoto de muitas casas ainda segue direto para os riachos e para o mangue. O lixo transborda e parece proliferar sozinho, dia após dia. Próximo à estação de trem são muitos os bois, cabras, cavalos, gatos e cachorros que se alimentam do lixo exposto a céu aberto, enquanto do lado oposto da rua vê-se casebres com esgoto a céu aberto e pessoas lavando seus carros recém-adquiridos, pois esses sim merecem ficar limpos. Os carros brigam com os transeuntes, e não é raro ouvir dos moradores que os carros sobem nas calçadas e os pedestres é que caminham nas próprias ruas. Espaços públicos de convivência são poucos, mas quando reformados ou construídos, costumam ser depredados em menos de um ano. O som alto impera, seja nos carros ou nas casas, e é praticamente impossível praticar o sossego, ler um livro ou mesmo ouvir sua própria música (em baixo volume) no final de semana. O antigo trem a diesel foi substituído pelo VLT – veículo leve sobre trilhos – antiga promessa de oferecer um transporte rápido ligando a cidade do Cabo à linha sul do metrô de Recife. O trem é muito moderno e bastante rápido, mas os intervalos entre as viagens são inimagináveis. Vou me abster de detalhar sobre a falta de funcionários nas estações, do pouco cuidado com o trem por parte dos usuários e, inclusive, do drible ao pagamento da passagem para embarcar na estação do bairro. Caro leitor, aqui eu o convido para refletir se eu estaria equivocada ou há algo de muito errado nisso tudo? Se a máquina pública estivesse, de fato, engajada em educar sua população com conhecimento básico e de boa qualidade a todos, excluindo-se todos os discursos e balelas de tom político-partidário, estaríamos assim? Não desejo me estender nesta discussão, pois, afinal esta é uma obra de relatos de assombro/fantasia, e você, caro leitor, deve ter vindo em busca disso. No entanto, é triste perceber que a realidade do bairro, que foi cenário da maioria dos causos retratados aqui, é bem mais assombrosa do que todas as histórias de assombração.
Finalmente, é preciso deixar claro que essas histórias são de uma época que ficou para trás, com memórias de um local que talvez só tenha existido em minha mente infanto-juvenil. E, como eu dizia inicialmente, as localidades, antes rurais, se tornaram cada vez mais urbanas, distanciando-se dos pensamentos irracionais envolvendo o medo de fantasmas endêmicos e entidades presepeiras. Os mangues e matas, no entorno das comunidades, têm sido constantemente destruídos. As pessoas já não criam mais animais, nem cultivam em seus quintais. Criaturas ao exemplo da Comadre Fulozinha, Pai do Mangue, Tôsseco, entre outros, perderam espaço para a civilização, para os criminosos de plantão. As crendices populares já não são mais tão fortes, e as crianças não acreditam tão facilmente nesses causos. Se isso é bom ou ruim, sinceramente não sei. Afinal, o bairro onde cresci progrediu muito nos últimos anos, de um antigo engenho de cana de açúcar, passou para um loteamento sem saneamento, até um movimentado e vizinho bairro, porém isolado, da europeizada reserva do Paiva, e a poucos minutos da tão falada Refinaria Abreu e Lima. Mas isso, caro leitor, são outros causos que o tempo há de reunir para outro alguém contar.

O lobisomem no jardim

Caro leitor, esta é, talvez, a história mais assustadora que conto aqui neste livro. Não a considero mais horripilante por seu enredo em si, mas porque fui a protagonista dessa história, juntamente com minha mãe, e posso atestar sua veracidade. Era um domingo do mês de janeiro de 2001, e ainda me recordo com riqueza de detalhes. Eu havia sido aprovada no vestibular da UFPE, e em março começariam as aulas; mas, por enquanto, estava mesmo curtindo o descanso das tão merecidas férias, após seis meses de árduo estudo. Minha mãe, aos domingos, costumava assistir ao programa do Silvio Santos noite adentro. Eu, ainda frequentava a igreja católica, da qual fazia parte do antigo grupo do coral; e depois da missa, que se estendia até pouco mais que nove da noite, costumava voltar para casa. Ou seja, por volta das dez eu já estava em casa e aproveitava para assistir ao programa do Silvio junto com minha mãe. Naquela época, tv a cabo era artigo de luxo, e para falar a verdade, eu acho que nem devia chegar tal recurso em Ponte dos Carvalhos. Assistir tv aberta era o padrão no bairro, e domingão com Silvio, geralmente, era a melhor entre as péssimas opções disponíveis. Era uma noite de domingo tranquila, nada de lua cheia, o céu estava aberto, tudo normal. No dia seguinte, tampouco haveria algo especial, que pudesse nos perturbar ou gerar qualquer ansiedade. Enfim, mais do mesmo... Depois das onze da noite, findado o programa na tv, começamos a nos preparar para dormir. Como, naquela época, meu pai ainda estava separado de minha mãe, costumávamos dormir no mesmo quarto para fazer companhia uma à outra, caso ocorresse algum incidente à noite. Nosso bairro, já fazia algum tempo, não era tão tranquilo e, na verdade, frequentemente virava notícia nos programas policiais locais. Nem preciso explicar que as notícias eram (e ainda são) escolhidas a dedo para chocar o máximo possível dos espectadores desses programas. Mas, apesar disso, até aquela data, nenhum incidente havia ocorrido na nossa casa. Geralmente dormíamos sossegadas, porém vigilantes. Nesta fatídica noite, eu adormeci muito rapidamente e, mal havia caído no sono, quando minha mãe me sacudiu falando baixinho: “Escuta, escuta!”. No primeiro momento (sabe quando alguém te acorda de um sono pesado num solavanco?), eu pensei: “Que raios ela quer que eu escute? Aposto que não é nada!”. Mas isso não durou nem três segundos e, eu escutei. Bem ao longe, como se viesse da esquina da nossa rua, algo como um uivo medonho. Não parecia cachorro, pelo menos nenhum que eu já tivesse ouvido durante minhas dezoito primaveras. Mas, de qualquer forma, eu preferi pensar que era um cachorro, e me tranquilizei. Foi então que ouvi outro uivo, ainda mais violento. Caro leitor, para você ter ideia do som, na verdade não se parecia com um uivo de cão, mas sim com o som grave de uma horripilante criatura de cinema. Minha mãe se refere aquele som como um verdadeiro urro, e eu até hoje não sei identificar quão sinistra seria a criatura, vivente na terra, capaz de expulsar de suas entranhas tão grotesco ruído. Este segundo urro parecia mais próximo da nossa casa, tão próximo que denunciava que aquela criatura estava mesmo bem em frente ao nosso portão. Preciso abrir aqui um parêntesis e esclarecer, principalmente ao leitor que vem fazendo uma leitura linear dessas histórias em ordem cronológica, que nossa casa sempre teve um muro pequeno e relativamente fácil de subir ou pular, assim como o portão igualmente baixo. Porém, exatamente naquele mês, minha tia Ana, que sempre morou em uma casa geminada ao lado da nossa, havia contratado um pedreiro, vizinho nosso, para elevar o muro de nossas casas e colocar dois novos portões bem mais altos. Naquela última semana, os muros estavam completamente terminados e os portões instalados, inclusive com fechaduras. Isso significava que para alcançar nosso jardim, alguém teria que usar uma escada bastante alta. Mas, voltando à fatídica madrugada, pois já devia ser uma da manhã da segunda-feira, não demorou mais que uns dez segundos para ouvir o terceiro urro horrendo da criatura. Desta vez, o som parecia vir do nosso terraço da frente, bem ao lado do quarto onde dormíamos. Ao ouvi-lo, tudo que eu pensei naquele momento foi “É somente um sonho, volte a dormir que vai acabar, volte a dormir!”. Instantaneamente eu baixei minha cabeça, ainda meio sonolenta e tentei ficar quietinha, sem mexer um músculo sequer. Foi então que minha mãe, com aquele jeito pernambucano dela, não se conteve e já foi falando alto mesmo: Essa menina ... a gente acorda ela para ajudar, e ela volta a dormir!”. Naquele instante, eu pensei: “Lascou-se tudo! É agora que esse bicho vai pular na nossa janela (um basculante, que estava quebrado e facilmente se abria) e sabe-se lá mais o quê”. Mas, surpreendentemente, tudo se acalmou; nada mais fez barulho, e eu e minha mãe ficamos quietinhas, caladas e quase paralisadas até adormecermos. No dia seguinte, ao acordar, fiquei alguns minutos na cama, tentando decifrar se todo aquele acontecimento não havia passado de um pesadelo. Quando eu vi que minha mãe já estava de pé na cozinha, eu levantei ainda meio amedrontada, e fui até ela. Logo percebi que ela ainda não havia aberto as janelas da frente da casa, e foi então que perguntei: “Mainha, aquilo foi um sonho, né?”, na esperança de que ela perguntasse sobre o que diabos eu estava falando. Mas logo veio sua resposta: “Não foi não! Eu ainda nem tive coragem de olhar lá fora, e estava mesmo te esperando para fazer isso”. Ainda bastante amedrontadas com o que poderíamos encontrar lá fora, criamos alguma coragem para abrir a porta, somente depois de ouvir que pessoas já caminhavam e conversavam na rua. Ao abrirmos a porta, veio outra surpresa: todos os sacos do lixo, recém organizados, estavam rasgados e remexidos, as plantas do jardim completamente arrancadas, um forte cheiro de animal (similar ao de um cachorro rabugento que não se banhava há anos) pairava sobre o jardim; e, o que mais me assustou, um andaime da obra recém-finalizada, que estava bem em frente à nossa janela, tinha sido empurrado juntamente com um grande jarro de planta da minha mãe. Pensando mais friamente depois de alguns anos, talvez todos esses detalhes tenham sido meras coincidências, que já estavam lá na noite anterior, mas que somente percebemos e, depois do fenômeno, associamos ao acontecimento da madrugada. Mas, de qualquer forma, tudo aquilo nos deixou ainda mais assustadas e com uma certeza ainda maior de que aquele som veio de uma criatura real e tenebrosa. Finalmente, fomos conversar com minha tia, nossa vizinha da casa geminada e, para nossa mais completa surpresa, ela não ouviu nada! Mas, como ela costumava ter um sono pesado, talvez fosse normal que ela não tivesse escutado qualquer coisa. Minha mãe tentou sondar outros vizinhos, e novamente ninguém escutou qualquer coisa estranha na última madrugada! Absolutamente nada. Mesmo as pessoas que se diziam acordadas naquele horário não escutaram nada, nem mesmo um latido de cachorro estranho, uns gatos bisonhos a procura de companheiras, nada, nada, nada. Aí ficamos ainda mais encucadas, pois qual seria a explicação para tamanha assombração? Alguns dias depois, um de nossos vizinhos, justamente o mesmo pedreiro da obra do muro, ao saber do ocorrido, nos disse que por volta da meia noite daquele domingo ele foi até o jardim de sua casa para fumar um cigarro, e que de lá avistou um filhote de jumento, deitado sob um pau-brasil que havia em frente à casa da minha tia. Até aí, nada anormal, pois já havia alguns meses que um jumentinho ficava por ali mesmo. Ninguém sabia muito bem de quem era, mas provavelmente era de um senhor que criava uns cavalos na quadra após nossa rua. Nunca saberemos se esse jumento teve relação com o fenômeno que escutamos e tanto nos assombrou, ou se o que escutamos foi o responsável pelo furdunço no nosso jardim, mas posso atestar, certamente, que aquilo foi a coisa mais pavorosa que já ouvi em toda a vida, e que, se naquela noite eu estivesse sozinha, ainda relutaria em acreditar em mim mesma.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Tá correndo bicho: o chupa galinhas

Em meados dos anos noventa, a mídia relatava com certa regularidade histórias sobre uma estranha criatura, que atacava criações de cabras e vacas no Brasil e outros países da América Latina. Segundo os relatos, a misteriosa criatura assaltava os animais chupando todo seu sangue, e deixava apenas pequenos orifícios, similares a lesões feitas com um laser. Apesar do ataque, nenhum sinal de sangue era encontrado no animal ou fora dele, deixando claro que não se tratava de um predador conhecido pelo homem. Por isso, logo esse possível monstro recebeu o nome genérico de chupa-cabras e, ainda hoje, volta e meia a mídia divulga algum caso muito semelhante envolvendo terrível criatura.
        Era final da década de noventa, não me recordo o ano exato, quando algo sinistro aconteceu na nossa vizinhança, mais exatamente na casa quase em frente a nossa. Em uma manhã de terça-feira, a vizinha começou a contar desesperadamente para todos vizinhos, que por ventura aparecessem na rua, sobre um acontecimento macabro em seu quintal. Segundo ela, já muito tarde da noite anterior, ouviu um ruído de galinhas em completo desespero, vindo do galinheiro que mantinha atrás de sua casa. Ela achou a movimentação estranha, pois o galinheiro sempre dormia fechado com cadeado, a fim de impedir o roubo dos animais, e mesmo a entrada de possíveis predadores, como o simpático timbu (esclareço ao leitor, não pernambucano, que timbu trata-se de uma espécie de gambá, Didelphis albiventris). Logo, essa vizinha abriu a porta da cozinha e foi verificar que tamanha gritaria era aquela em seu galinheiro. Foi então que, nas palavras dela, essa vizinha viu, a menos de três metros, um bicho dificilmente desse mundo, meio parecido com um leão grande e branco. O bicho havia derrubado a porta do galinheiro, já havia atacado e matado algumas galinhas, mas, com a aproximação da mulher, ele saiu do galinheiro e ficou parado, em meio a um mato alto, no fundo do terreno, a lhe observar com olhos grandes e vermelhos. Ainda segundo seu relato, a vizinha jogou uma pedra no bicho, fazendo com que seus pelos ficassem ainda mais eriçados. O bicho, que não parecia intimidado, rosnou alto e forte para a mulher, que também não se intimidou com aquele felino albino do além, voltando a procurar uma pedra no chão, dessa vez ainda maior, e a jogá-la novamente contra o bicho que, dessa vez, correu para bem longe em grande desespero.
        Naquela manhã, ao relatar a história, a vizinha aproveitava para mostrar aos curiosos os corpos mortos de suas galinhas, com dois orifícios no pescoço ou peito, e sem qualquer vestígio de sangue. Tamanha foi a repercussão da história no bairro e municípios vizinhos, que duas equipes de reportagem foram até o local entrevistá-la, em busca de informações sobre o suposto chupa galinhas, um possível primo do já famoso chupa cabras das Antilhas. Depois desse episódio, ocorreram mais alguns relatos de supostos avistamentos do mesmo bicho, perambulando pelo bairro. E ainda houve outro vizinho, de uma casa da esquina, que disse ter ficado de tocaia por várias noites seguidas, tendo atirado e sangrado a criatura, que sumiu no mato e nunca mais foi vista.

Alguns meses se passaram até que, na mesma casa do acontecido, dessa vez a nora desta vizinha, disse ter acordado de madrugada ouvindo os cachorros latindo e acuando alguma coisa na rua. Ela olhou pela brechinha da janela e, tamanha foi sua surpresa, ao perceber que havia um animal parecido com um cachorro grande, porém repleto de grandes espinhos. Ele confrontava os cachorros, que pareciam temê-lo, embora continuassem a latir. Ela fechou a fresta da janela e ficou quieta até que os cachorros se acalmaram e, o bicho, provavelmente foi embora. Desde então, o relatos sobre essa possível criatura, que vagava à noite nas ruas do bairro, não foram mais ouvidos. 
--->> Veja AQUI depoimento da vizinha!

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Tá correndo bicho: causos de engenho

Havia muitas histórias (ou estórias) de bichos que corriam, tarde da noite, nos engenhos pernambucanos, afastados das luzes das cidades. Esses bichos botavam tanto pavor nos moradores que as pessoas mudavam seus hábitos e horários para evitar um possível encontro com um chupador de sangue, meio homem meio bicho, cuja natureza era demasiadamente medonha e sinistra. Essa história é sobre uma tia avó minha, que morava no Engenho Campo Alegre, e que tendo que visitar sua sogra, minha bisavó Dona Donzinha, no município de Escada, tinha que caminhar cerca de dez horas, em estradas margeadas por canaviais e, às vezes, pequenos vilarejos até chegar em seu destino. Essa distância não espanta, visto que, no passado, era costume rotineiro pessoas realizarem longas caminhadas, que duravam até dias inteiros, para visitar familiares em outros municípios vizinhos. Após visitar sua sogra, normalmente essa minha tia saia bem cedo na manhã seguinte, o que lhe garantia chegar a Campo Alegre ainda à tardinha. No entanto, em certa ocasião, ela se descuidou da hora e deixou a casa de minha bisavó somente ao meio dia. Apesar de estar receosa com o andar das horas, ela queria mesmo retornar para sua casa. Deixou de lado sua apreensão, embora soubesse que, mesmo a passos largos, só chegaria em casa após dez horas da noite. Naquela época não havia tanta violência e minha tia, diga-se de passagem bastante corajosa, não teria tido seu coração afligido, se não fosse pela tenebrosa notícia sobre um bicho que andava atacando animais nos engenhos ao longo de seu caminho. A estrada era de terra e parecia se estender infinitamente por entre canaviais, matas fechadas e raros vilarejos. Já havia escurecido e passava das onze horas da noite, mas faltava ainda mais de uma hora de caminhada até sua casa, que ficava em um sítio bem afastado do engenho. Apesar do medo, a noite estava bastante iluminada pela lua e nenhuma criatura havia lhe cruzado o caminho, quando, ao subir um morro, ela percebeu um vulto escuro e muito grande se locomovendo logo abaixo. Nesse instante, seu coração disparou completamente, pois ela sabia que só havia cana de açúcar em sua volta e, seja qual direção tomasse, ela ainda estava a mais de uma hora de qualquer alma viva. Ela criou coragem e reduziu seu caminhar, esperando que aquela criatura desaparecesse ao longe, no meio do breu. Quando não mais viu qualquer sinal de criatura, apertou o passo e, finalmente ao chegar em casa, encontrou seu marido que a recebeu desesperado, relatando que não fazia nem meia hora que o tal bicho, que corria por aquelas bandas, acabara de passar urrando alto, muito perto de sua casa.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O astronauta no portão

Esta história certamente é a mais bizarra e inesperada entre todas as relatadas aqui, não por sua natureza em si “estranha”, visto que as outras também o são, e até muito mais, mas por tratar-se de uma visão sem igual em toda a História (creio eu, em minha humilde imaginação). Por volta do final dos anos 90, a maioria das crianças, que antes enchiam de brincadeiras a rua lá de casa, já havia crescido. Embora eu não brincasse na rua, era sempre costume fazer alguma zoeira em casa, fosse com meus primos ou com os filhos da comadre da minha mãe. Em uma dessas noites, logo após o jantar, lembro que conversavam no quarto da minha tia, a própria, minha mãe e sua comadre, enquanto eu e a afilhada de minha mãe brincávamos na sala. Não lembro bem em que consistia a brincadeira, mas acho que não era nada elaborado, simplesmente estávamos jogando almofadas umas nas outras. Foi quando, de repente, essa menina encostou-se à parede, pálida e olhando para mim. Eu, já assustada, perguntei o que ela havia visto e, para minha surpresa, ela respondeu que avistara um astronauta no portão. Aqui, caro leitor, preciso esclarecer que as casas de minha mãe e tia são geminadas e, naquela época, possuíam um muro baixinho com portão em grade metálica, o que permitia ver claramente toda a rua. Como a porta da sala possuía basculantes, qualquer pessoa de dentro da sala veria facilmente alguém na rua. A menina estava visivelmente paralisada, repetindo que ele ainda estava lá fora. Naquela ocasião, pega tão de surpresa, eu não quis pagar para ver, então nos abaixamos e saímos engatinhando até o quarto para, então, contar o ocorrido às nossas mães. Nem preciso dizer que ninguém acreditou naquele fato para lá de inusitado; se ainda fosse um fantasma, mas um astronauta? Depois de alguns minutos, conseguimos, ao menos, convencer nossas mães de que estávamos bastante assustadas. Fomos todas para a sala, mas como já era esperado, não havia uma viva alma no portão. Os únicos detalhes a mais que a menina conseguiu relatar, depois do ocorrido, foi que aquele astronauta – ela o definiu assim, pois estava todo de branco e com um capacete também branco similar ao de um astronauta – tinha estatura pequena, similar a uma criança de oito ou dez anos, e segurava as grades do portão com as mãos, como se estivesse curioso em ver o que havia dentro da casa. Até hoje, não tenho explicação para aquilo. Alguém fantasiado, tentando pregar uma peça; quanto investimento para mais ninguém na rua ter visto aquilo também? Uma visão deslocada que a menina achou ter enxergado, no meio daquela brincadeira de almofadas? Ou realmente teria sido algo insólito? Vai saber...